Reciclando erros – A arte de continuar

Quando era pequena, adorava o início do ano letivo. Adorava manusear os cadernos novos e escrever tudo com capricho e com a letra bem bonita. Essa emoção durava algum tempo, até que o material já estivesse com cara de usado e ficava claro que aquele ano não seria lá tão diferente do anterior. Quando isso acontecia, eu normalmente continuava fazendo as atividades com capricho e esforço, mas já não tinha a mesma esperança.

A diferença entre o primeiro e o segundo momento talvez não fosse visível a olho nu. Talvez nem meus professores percebessem queda na qualidade do meu caderno. Mas a diferença era enorme!

No primeiro momento eu fazia tudo com fé, acreditando que aquilo seria como uma varinha mágica – se eu fizesse tudo certinho, a vida seria linda e perfeita, e tudo aconteceria como eu achava que deveria. Eu acreditava que estava plantando com perfeição e que colheria desta forma também.

Já no segundo momento, eu estava só cumprindo minhas obrigações. Continuava tentando fazer o que devia de maneira correta e satisfatória, mas imaginava que a colheita já estava perdida. Para a vida ser perfeita agora, havia de esperar o ano seguinte. Olhando para trás, não consigo deixar de lamentar uma infância assim.

Sempre me lembro claramente deste gostinho de caderno novo quando tenho um em minhas mãos. Na verdade, na medida em que fui crescendo, fui trazendo-o para outras áreas da minha vida. O leitor atento já deve ter percebido minha fixação com Ano Novo e outros momentos de mudança e renascimento (por falar nisso, a Páscoa vem aí…). Na verdade, temo que muitos deles não sejam mais do que outras manifestações da tal ”Síndrome de Caderno Novo”.

Ouvi falar que no colégio antroposófico as crianças não podem usar borracha por anos (até a 4ª série, eu acho). Quando erram, devem tentar transformar isso em algo bom. Reciclar, imagino. Estive em uma exposição dos trabalhos dos alunos de lá e fiquei encantada com a beleza e profundidade de tudo que vi. Fiquei imaginando que uma criança que cresce com essa liberdade, não deve nunca se preocupar se o caderno é novo ou não.

Agora imagine que depois de tantos anos, essa é a primeira vez que percebo o tal caderno, ano ou outra coisa nova como algo limitador e como uma fonte de stress. E se o primeiro erro dentro da lógica da minha criança interior é sempre fatal, por outro lado pode ser também libertador, certo?

Pois essa é a estratégia da semana. Claro que devemos fazer o melhor que podemos, acredito que a vida só faz sentido assim. Mas a sugestão é uma mudança de paradigma no sentido de como ver o erro.

Erramos todos, essa é uma das poucas certezas da vida. Mas se errar é tão comum, por que sofrer tanto com nossos erros? Por que permitir que eles sejam uma fonte tão grande de stress? Errar é parte da vida e aprendemos muito com isso. O medo do erro nos paralisa e muitas vezes nos impede de vivermos experiências que poderiam ser extraordinárias para nosso crescimento e felicidade.

Pois então, sugiro que tornemos a vida mais leve em primeiro lugar aceitando que o erro é parte dela. E em segundo, e talvez mais importante, aceitando que um erro não precisa destruir nada além da ilusão da perfeição. E aceitar que não somos e nem temos a obrigação de sermos perfeitos pode ser extremamente libertador. Óbvio, não é mesmo? Deveria ser…

Uma das estratégias para lidar com erros (nossos e dos outros) é o perdão. Mas o objetivo da reflexão de hoje é mais lúdico. Guardemos o perdão para outro dia, e comecemos a reciclar. Que a sucata dos nossos erros seja matéria-prima para muitas coisas lindas, leves e que possam trazer muita alegria e cor para nosso dia-a-dia tão corrido e, por vezes, cinzento.

transformações possíveis

Anúncios

Tempos Modernos

Das muitas mudanças de fase que trazem consigo a esperança de mudanças e novas oportunidades, o Ano Novo é a minha preferida. É sempre uma oportunidade de rever nossas ações e definir novas metas.

Mas se ilude aquele que se joga no novo ano esperando que as mudanças aconteçam como em um passe de mágica. Ouvi dizer que loucura é praticar as mesmas ações de sempre, esperando atingir resultados diferentes. Então, para colher resultados diferentes, é preciso plantar sementes diferentes. Para uma colheita mais farta, é preciso um trabalho mais persistente. E para uma colheita mais doce, é preciso uma lavoura mais amorosa…

Desejo a todos que em 2012 tenhamos mais clareza na hora de escolher nossas sementes. Que possamos fazer isso de forma mais consciente, para podermos aprender com nossos erros e nos orgulharmos de nossos acertos.

Desejo que cada um de nós tenha mais força para não desistir face ao primeiro obstáculo. Que tenhamos força para vencer TODOS os obstáculos. E desejo também que sejamos grandes o suficiente para mudarmos o objetivo de forma consciente, caso isso seja necessário.

Desejo a todos a capacidade de praticar muitas gentilezas em 2012. Que a marca deste ano seja um mundo mais amoroso.

Que 2012 seja um ano no qual as pessoas consigam se entregar às coisas de forma mais inteira, se doar mais, abrir mais portas e fechar menos. Quando se tenta mais, é natural errar mais também. Mas errar não é problema desde que cada um dê o melhor de si. Que em 2012 cada um de nós se permita arriscar mais, celebrar com alegria os sucessos e se perdoar pelos fracassos.

Que em 2012 todos nós consigamos multiplicar o tempo para o dividirmos melhor com nossos amigos queridos!

E finalmente, filtre tudo o que você aprendeu esse ano. Guarde com carinho os amigos que fez, os bons momentos que viveu. Livre-se daquilo que não serve mais, jogue fora, perdoe (a si mesmo e ao outro também!). Prepare-se! Porque…

As frustrações de 2011 passarão… 2012 passarinho!