Dar e receber com consciência – sobre a convivência em um mundo conectado

Hoje estamos mais conectados uns aos outros do que nunca! Informações e opiniões entram e saem com uma rapidez jamais vista. A quantidade de dados, corretos ou não, que entra em nossos cérebros é enorme. E isso acontece enquanto estamos correndo – no carro, no elevador, na sala de espera do médico, ou em qualquer lugar onde encontramos uma brecha.

Isso tudo tornou o mundo menor e mais acessível, o que é fantástico! Podemos manter contato, ainda que superficial, com aqueles amigos de adolescência que havíamos perdido de vista quando nos mudamos para cidades diferentes. Encontramos facilmente excelentes artigos sobre nossa área profissional, sem precisarmos sequer sair de casa. Podemos nos comunicar com mais frequência com familiares que moram em outros países. Temos acesso a notícias praticamente na hora em que elas acontecem. São muitas as possibilidades!

Internet, e-mail, Skype, Facebook, Twitter, celular, WhatsApp – são tantas as formas através das quais estamos conectados que às vezes perdemos o controle do que entra e do que sai. Muitas vezes nos pegamos dizendo “Li/ouvi em algum lugar que…”. Se nem nos lembramos da fonte, será que ela é confiável?

Novos tempos requerem novas medidas! Será que o nível de leitura crítica que usávamos até agora é suficiente? Precisamos desenvolver novos filtros de entrada – mais sensíveis, mais apurados.

E precisamos tomar cuidado com nossas palavras! Qualquer coisa dita (ou não dita!) por pessoas famosas, sejam elas artistas, políticos ou jornalistas, pode ir parar no facebook com suas fotos. Isso sem falar naqueles e-mails enormes que recebíamos “antigamente” assinados por Jô Soares, Jabor, Cristovam Buarque, etc. que nem Deus sabe quem realmente escreveu! Você já repassou algum?

Precisamos desenvolver novos filtros de saída também! O que acontecerá se o que eu disser for multiplicado por toda a comunidade da qual eu faço parte? O resultado será o que eu queria? O resultado será positivo?

Parece que na tentativa de desenvolver esse novo filtro de entrada, a sociedade de hoje, com sua pressa, substituiu a crítica de fonte por uma postura defensiva e um grande senso de revanche. Mais do que nunca, é essencial escolhermos conviver em comunidades e espaços nos quais confiamos! Viver na defensiva achando que o outro quer sempre nos lesar é muito desgastante. Isso frustra e tira o prazer das coisas boas que às vezes nem percebemos.

Talvez esses novos filtros de entrada e saída nem precisem ser tão novos assim, se os usarmos com disciplina. Sugiro reciclarmos uma ferramenta de 400 a.c. – afinal reaproveitamento é também palavra de ordem de nosso tempo! – os três filtros de Sócrates. Antes de falarmos (ou escrevermos ou postarmos) seria bom nos perguntar:

  1. Tenho realmente certeza de que o que vou dizer é verdade e que tenho a informação inteira e seu contexto?
  2. A minha mensagem é positiva? Se for, compartilhe-a aos quatro ventos! Falar de coisas boas nos deixa mais leves e positivos. Além disso, pode ajudar o outro a perceber e passar a saborear coisas que estavam lá o tempo todo, mas que ele nem havia reparado ainda! Falar de coisas boas nos faz sorrir e nos deixa mais bonitos. Não tem contraindicação. E nos dá mais credibilidade quando precisarmos expressar pontos de insatisfação! Claro que precisamos expor e discutir coisas negativas também, até para que elas possam melhorar! Mas nesse caso, precisamos prestar atenção ao terceiro e último filtro.
  1. O que vou expressar (e onde, como e para quem) é realmente útil? Como isso poderá trazer benefícios e tornar a comunidade que escolhi ainda mais confiável? A colocação de pontos que precisam ser melhorados também pode ser feita de uma forma positiva, desde que se vá direto na fonte através de um diálogo.

Algumas vezes é possível transformar as coisas da forma que queremos e outras não. Faz parte da vida adulta saber conviver com isso. Mas isso só é possível se escolhermos com consciência nossas comunidades para vivermos com confiança, e mantivermos em mente as coisas boas compartilhadas lá.

Lembre-se: como membro de uma comunidade, sou corresponsável por ela!

É preciso filtrar - as marcas que deixo e as que permito deixarem em mim.

É preciso filtrar – as marcas que deixo e as que permito deixarem em mim.

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Reciclando erros – A arte de continuar

Quando era pequena, adorava o início do ano letivo. Adorava manusear os cadernos novos e escrever tudo com capricho e com a letra bem bonita. Essa emoção durava algum tempo, até que o material já estivesse com cara de usado e ficava claro que aquele ano não seria lá tão diferente do anterior. Quando isso acontecia, eu normalmente continuava fazendo as atividades com capricho e esforço, mas já não tinha a mesma esperança.

A diferença entre o primeiro e o segundo momento talvez não fosse visível a olho nu. Talvez nem meus professores percebessem queda na qualidade do meu caderno. Mas a diferença era enorme!

No primeiro momento eu fazia tudo com fé, acreditando que aquilo seria como uma varinha mágica – se eu fizesse tudo certinho, a vida seria linda e perfeita, e tudo aconteceria como eu achava que deveria. Eu acreditava que estava plantando com perfeição e que colheria desta forma também.

Já no segundo momento, eu estava só cumprindo minhas obrigações. Continuava tentando fazer o que devia de maneira correta e satisfatória, mas imaginava que a colheita já estava perdida. Para a vida ser perfeita agora, havia de esperar o ano seguinte. Olhando para trás, não consigo deixar de lamentar uma infância assim.

Sempre me lembro claramente deste gostinho de caderno novo quando tenho um em minhas mãos. Na verdade, na medida em que fui crescendo, fui trazendo-o para outras áreas da minha vida. O leitor atento já deve ter percebido minha fixação com Ano Novo e outros momentos de mudança e renascimento (por falar nisso, a Páscoa vem aí…). Na verdade, temo que muitos deles não sejam mais do que outras manifestações da tal ”Síndrome de Caderno Novo”.

Ouvi falar que no colégio antroposófico as crianças não podem usar borracha por anos (até a 4ª série, eu acho). Quando erram, devem tentar transformar isso em algo bom. Reciclar, imagino. Estive em uma exposição dos trabalhos dos alunos de lá e fiquei encantada com a beleza e profundidade de tudo que vi. Fiquei imaginando que uma criança que cresce com essa liberdade, não deve nunca se preocupar se o caderno é novo ou não.

Agora imagine que depois de tantos anos, essa é a primeira vez que percebo o tal caderno, ano ou outra coisa nova como algo limitador e como uma fonte de stress. E se o primeiro erro dentro da lógica da minha criança interior é sempre fatal, por outro lado pode ser também libertador, certo?

Pois essa é a estratégia da semana. Claro que devemos fazer o melhor que podemos, acredito que a vida só faz sentido assim. Mas a sugestão é uma mudança de paradigma no sentido de como ver o erro.

Erramos todos, essa é uma das poucas certezas da vida. Mas se errar é tão comum, por que sofrer tanto com nossos erros? Por que permitir que eles sejam uma fonte tão grande de stress? Errar é parte da vida e aprendemos muito com isso. O medo do erro nos paralisa e muitas vezes nos impede de vivermos experiências que poderiam ser extraordinárias para nosso crescimento e felicidade.

Pois então, sugiro que tornemos a vida mais leve em primeiro lugar aceitando que o erro é parte dela. E em segundo, e talvez mais importante, aceitando que um erro não precisa destruir nada além da ilusão da perfeição. E aceitar que não somos e nem temos a obrigação de sermos perfeitos pode ser extremamente libertador. Óbvio, não é mesmo? Deveria ser…

Uma das estratégias para lidar com erros (nossos e dos outros) é o perdão. Mas o objetivo da reflexão de hoje é mais lúdico. Guardemos o perdão para outro dia, e comecemos a reciclar. Que a sucata dos nossos erros seja matéria-prima para muitas coisas lindas, leves e que possam trazer muita alegria e cor para nosso dia-a-dia tão corrido e, por vezes, cinzento.

transformações possíveis