Para mim ou para você?

É preciso cuidado ao se expressar sobre os sentimentos, pensamentos e propósitos do outro.

Já dizia Clarice Lispector “Tudo no mundo começou com um sim”. O sim abre portas, liberta, cria possibilidades.

Um bom feedback começa com um sim de quem vai dá-lo. Um sim para o outro, que representa a certeza de que ele pode crescer e mudar. E se cumprir seu objetivo, o feedback termina com um sim de quem o recebeu. Um sim de gratidão pela mensagem recebida e para si mesmo: – “Yes, I can!”

Na minha opinião há três tipos de feedback – o feedback natural, o feedback mal preparado ou mal intencionado e o feedback consciente e construtivo.

O feedback natural é aquele que acontece o tempo todo. Como o ser humano não vive isoladamente, ele constantemente interage com o outro e com o mundo a sua volta. Destas interações surgem momentos de satisfação e de conflito que geram o feedback natural. Uso o termo para me referir àquela reação que as pessoas emitem o tempo todo naturalmente e sem nenhuma reflexão maior.

Um exemplo de feedback natural são as coelhadas que a Mônica dá no Cebolinha. Elas são uma clara mensagem de que ela não gosta daquilo que ele faz, mas não geram nenhuma mudança de comportamento. Há vários outros exemplos, como os xingamentos no trânsito e as opiniões expressas de forma muito sinceras por crianças. Aqui também se encaixam as explosões que temos e bobagens que falamos sem pensar, na hora da raiva. São reações com poucos ou nenhum objetivo concreto.

A segunda categoria é o feedback mal preparado ou mal intencionado. Diferente do feedback natural, ele tem um certo nível de consciência. Ao dar feedback desta forma, a pessoa pode ter uma boa intenção, mas não saber como se expressar de forma a gerar algo positivo no outro. Desta forma, o feedback mal preparado pode ter o mesmo efeito do feedback mal intencionado – confundir, machucar, limitar, desencorajar o outro.

Neste grupo encaixa-se o feedback desesperado, que muitas vezes damos após alguma reflexão em situações de conflito. Às vezes, na hora da raiva pensamos rápido e chegamos a uma conclusão sobre o outro que jogamos em sua cara, achando que aquilo pode lhe ser útil. Nestes casos, se a pessoa não estiver mal intencionada, depois de algum tempo provavelmente enxergará com alguma clareza que aquela não foi a melhor forma de se expressar.

É comum o feedback natural, mal preparado ou mal intencionado falhar, porque geralmente nesses casos  a pessoa que o transmite está no fundo mais focada em seus próprios sentimentos do que no outro. Ela então fala como se estivesse se expressando com toda a consciência, mas a intenção verdadeira não é ajudar o outro e sim colocar para fora algo que a esteja incomodando.

Talvez, mais do que feedback, isso seja um desabafo, uma faxina interna, que pode gerar alívio por ter se livrado de um sentimento negativo ou peso na consciência caso a pessoa tenha alguma preocupação com o outro.

E finalmente chegamos ao bom feedback! Seu poder gerador e transformador é provavelmente maior do que de qualquer outra ferramenta que eu conheça. Seu objetivo é gerar no outro um nível maior de consciência sobre algum aspecto que possa ser melhorado. E eis aqui um ponto chave! O feedback só é útil se fizer referência a algo que possa ser mudado. Porque a segunda, e não menos importante, parte de sua missão é gerar motivação suficiente para arregaçar as mangas e começar a trabalhar o aspecto sobre o qual se passa a ter mais consciência.

Para que ele seja eficiente, é bom que contenha exemplo(s) concreto(s) que expressem com clareza o que precisa ser trabalhado e por que. Além disso, é essencial que contemple instrumentos de trabalho. Um bom feedback não é um retrato perfeito da realidade. É preciso que saibamos escolher nossas batalhas. O tema do feedback precisa ser um desafio possível de ser superado. Se jogarmos na cara do outro uma série de problemas sem solução, provavelmente geraremos mais frustração do que vontade ou força para mudar. Se trabalharmos uma coisa de cada vez, a chance de ela ser bem digerida é muito maior. E a pessoa precisa de tempo para refletir sobre o que foi dito, antes de estabelecer seu plano de ação.

E isso nos leva à terceira característica do bom feedback. Além de se referir a algo claro e concreto, é necessário que ele contenha sugestões que instrumentalizem o outro na sua busca por crescimento. Se nem eu sei como um problema que eu estou visualizando pode ser solucionado, como posso esperar que o outro, que talvez nem enxergue o problema da mesma maneira que eu, possa encontrar uma solução?

E por último, mas não menos importante, é bom lembrar que um feedback equilibrado só pode ser dado em um momento de equilíbrio. Se não estamos conseguindo nem nos apoiar sobre as próprias pernas não será possível darmos palpites sobre o equilíbrio alheio. Neste caso, talvez seja melhor começarmos trabalhando nossas próprias questões.

O maior desafio ao dar feedback é conseguir colocar nossas próprias dores de lado. O feedback pertence a quem recebe e não a quem dá. Seu objetivo deve ser servir e ele só pode ser atingido se for buscado com gentileza.

Saber se um feedback cumpriu ou não o seu papel é muito fácil. Basta observar se quem o recebeu saiu com clareza sobre o que foi dito e com uma agradável sensação de esperança, ainda que saiba que pode precisar trabalhar duro para alcançar o crescimento esperado.

Uma vez ouvi em uma palestra sobre a Construção da Paz de Luis Henrique Beust  do Instituto Anima Mundi três perguntas que devemos nos fazer antes de dizermos qualquer coisa. São elas: É verdadeiro? É útil? É necessário?

Sugiro que elas norteiem aquilo que dizemos ao outro sobre ele mesmo. Nossas palavras podem funcionar como bálsamo ou serem devastadoras. Qual será a sua escolha?

É preciso cuidado ao se expressar sobre os sentimentos, pensamentos e propósitos do outro.

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